Para pessoas que não trabalham na área da saúde, a figura do psiquiatra ainda carrega uma aura de mistério quase teatral. Há quem imagine que entrar em algum consultório significa assinar um contrato vitalício com a indústria farmacêutica, saindo de lá carregando um coquetel de pílulas para o resto dos seus dias. Felizmente para os pacientes (e para o nosso próprio bom senso), a psiquiatria moderna opera sob uma lógica muito mais refinada, transparente e geralmente temporária.
O que tento fazer nos meus tratamentos passa sempre por essas três regras:
- Uma Sociedade de Duas Vias (A Decisão Compartilhada)
A consulta médica não deve ser um tribunal onde o doutor dita sentenças e o paciente apenas acata. O tratamento ideal é, fundamentalmente, uma sociedade. Tento discutir o caso com você abertamente, avaliando e descrevendo sintomas e situações. E essas informações levam geralmente à três sugestões:
Mudanças no estilo de vida: O que inclui arrumar a bagunça do sono, ajustar a dieta e, por mais doloroso que pareça para quem não goste, alguma atividade física.
Psicoterapia: O indispensável trabalho de engenharia feito com o psicólogo.
Medicações: Que entram na equação quando a biologia precisa de um empurrão que a força de vontade não consegue dar.

- A Arte da Dosagem Precisa
Quando prescrevo remédios, tenho que sempre equilibrar a prescrição da seguinte forma:
Usando a menor dose possível…: A regra aqui é a economia. Evitam-se prescrições pesadas e medicações supérfluas que sirvam apenas para aumentar a chance de efeitos colaterais. Por isso, tendo a começas as medicações paulatinamente.
… desde que a dose que seja efetiva: Por outro lado, a homeopatia de boas intenções não cura. A dose precisa ser projetada para que o paciente fique assintomático. O objetivo da medicina não é fazer com que você se sinta “um pouco menos pior”, mas sim devolver-lhe o estado de normalidade e plena autonomia e produtividade.
- A Jornada com Prazo de Validade (Começo, Meio e Fim)
Salvo exceções crônicas muito bem delimitadas, o tratamento psiquiátrico não é uma prisão, e sim uma viagem com destino final conhecido. Dividimos essa estrada em três etapas claras:
O Começo: Onde desatamos o nó do diagnóstico, acolhemos o paciente em sua fase de mais dificuldade e iniciamos os tratamentos adequados.
O Meio: O período de calmaria e consolidação. O paciente já se sente de volta ao seu normal, e o foco é manter o terreno firme para que se estabeleça uma melhora a longo prazo, e para que possamos pensar em mudanças para evitar novos momento de piora.
O Fim: O processo para a alta. É o momento de retirar os medicamentos de forma gradual, segura e sem pressa (desmame), permitindo que o indivíduo saia pela porta do consultório caminhando por suas próprias pernas, com orgulho e tranquilidade.
No fim das contas, o que faço é basicamente um exercício de restauração da autonomia, e o faço com muito prazer!


